terça-feira, 30 de julho de 2013

CASA, Renato HELL Albasini

Faz tempo. Muito tempo e como ele o é relativo, cá estou de volta. Como um fungo que brota na umidade. Um bolor no fundo dos aposentos. O montante de lã enrolada no umbigo mais limpo que você já conheceu. Lá estou. 
E nós todos com nossas peripécias e absurdos existenciais, consumamos nossas ideias e opiniões como ditadores do conhecimento de causas diversas. Somos a farsa malsucedida da nossa própria incompetência. A nossa maior virtude se torna o nosso maior pecado.
Cá estamos apenas para dar o "alô' do que virá. Ano 13 de 2000.  
Revoltando a curva do andar do caminho que esbarro no amigo que grita através do email a minha presença. Não como ordem, nem eu agindo com arrogância, mas pela amizade e compartilhamento dessas nossas ideias outrora ditadoras.

Sinto bem voltando para casa. Ela não está de portas abertas me esperando, está com ela arrombada e em chamas!

domingo, 28 de julho de 2013

Banho Quente, Saco de Dormir e Trago de Qualidade Para os Moradores de Rua do Centro JÁ! (Por Tommy Wine & Beer)


foto de Preta


Alugo um quarto numa pensão do centro histórico de porto alegre/rs/Brasil.

O centro é um tanto sujo e cheio de vagabundos e punguistas.

Aqui na minha esquina há um viaduto onde se concentram uma quantidade enorme de moradores de RUA.

E estes caras são os verdadeiros UNDERGROUNDS. Junto com os ratos, as baratas e os vira-latas de rua.

Eles até se confundem um pouco com esses animais. São sujos, livres, loucos.

São tristes? Dignos de pena? Sei não. Já tive um chefe rico e engomado que eu achava muito mais digno de pena.

Opiniões, cus, preconceitos, guampas, filosofias e face book todos temos.

Tenho um tubo de vinho de dois litros aqui comigo. Pode ser culpa do filho da puta até, só que me deu vontade de fazer uma ode a essas figuras pitorescas cujas RUAS são como veias doentias onde escorrem o sangue de seus desatinos, seus delírios, drenando vida pra seus corações loucos!

São hipsters! White-negros! Negros de tão Podres!

Daí eu acho que estes cidadãos que NEGAM. Negam tudo! Toda regra! Toda convenção: família, estado, que não suportam sequer a porra dos albergues da FASC! A propósito, como a FASC pretende manter seus clientes lá com seu regramento para escoteiros e seminaristas?

Me ocorreu que por conta desse frio da porra eles teriam direito a PORRA de um SACO-DE-DORMIR maneiro! Um sleeping bag formidável!

Tenho alguns amigos que moram na rua aqui no centrãozinho. Medina, o reciclador alcoólatra que curte Raul e se diz ex-estudante de Agronomia e natural São Pedro do Sul. Uma rica de uma pessoa. Por exemplo, muito melhor, milhas de melhor do que um advogado ricaço que conheci, chamaremos de Scarfunk para evitar magoá-lo. Também há a “Cigana” ou Carminha, dá foto maluca lá em cima!

Não sou “São Fran”, sou um cara entediado e me alimento das loucuras e aventuras desses caras.

Alguns gostam de escrever e fazer cartoons ou pintar. Então eles também poderiam ter cavaletes para quadro, potes de tinta, pincéis e lápis!

Sei que muitos deles quando estão de fogo são uns chatos. E qual bêbado não desaponta alguém?

Chuveiros populares bem quentinhos aqui no centro pra essa gente tomar banho seria uma boa igualmente!

Banhos quentes pra tratar ressacas, pra lavar seus rabos sujos.

Um banho quente revigora e dá barato. Iria tirar um pouco do asco que causa na população. Pra diminuir a merda da invisibilidade, afinal!

Outro lance maneiro seria uma “política de redução de danos”, trocando seus tubos de cachaça venenosa por bons vinhos.

Não só a canha por vinho. Pedra por pitico. Pitico por Selma. Selma por colunas da L.O.U.C.A. E por aí iriam outras políticas humanistas maneiras...

Afinal as ruas são a universidade dos loucos. Esses doutores merecem estas subvenções, podem até ser vagabundos, mas esse não é um argumento convincente em nossa república para negar ajudas de custo.

Aqui abundam tetas para vagabundos e picaretas de paletó que roubam a nossa grana que iria para leitos de hospitais e salas de aula pra bancar propina pra comprar apoio de velhos parlamentares direitistas com hemorróidas!

sábado, 27 de julho de 2013

A Flor de Lindas Pernas (por Felipe Mutley)


 
 
Enquanto eu te beijo

O beija-flor beija a flor

Tranqüilo e sem desejo

Ah, beija-flor, eu te invejo

Tu vens quando quer

Ela sempre te espera

Mas minha flor não tem raízes

Tem lindas pernas

Mas oh, de que adianta?

Se está sempre com pressa...

 

Entre pútridas putas

Portadoras de beleza profana

Estamos nós

Presos à correnteza da cama

Os mesmos nós

Que nos levam à franqueza

São aqueles da fraqueza

Que acabrunha a nossa vontade

Corramos inúteis!

Antes que seja tarde

E a pedra despenque

Do branco de rosas fúteis

Exaladoras de odor anestésico

Desta vez sem segredo

Da miséria do inevitável, fujo

Mecânico e com medo

Atiro-me ao antro do amor sujo

 

Fiz um buraco na transparência da minh’alma

Deixei que saísse aquele vácuo coagulado

Mas na audiência com meus monstros

Cheguei dez minutos atrasado

Veredito: culpado

Não perdi a calma e acatei a pena

Prendo para sempre os monstros em minha alma

E nunca mais vou deixá-los fazer cena

 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

The Suburbs, do Arcade Fire (por Sannio Carta)

"But by the time the first bombs fell we were already bored"
Dedicado "aos garotos da rua de trás lá de tapes" e a toda a guria que já me achou bonitinho"


Gosto da música que deu título ao texto. Tem uma sonoridade bem agradável, a dita.

Esse texto contudo, tende a não agradar tanto.  Por motivos misteriosos, Nada tão óbvio, adianto. 

Possivelmente, venha a ser um dos meus últimos textos a LOUCA. Pelos mesmos motivos misteriosos e igualmente não tão óbvios.

Mas essa é só a introdução. É quando dá pra sentir um molhadinho na ponta do pau. Do contrário eu não sei. E nem pretendo.

Ai, meu Deus! E todas as outras expressões afetadas de aflição.

Estou de volta ao subúrbio. E só esse fato já é motivo de angústia e de suicídios ensaiados (no plural, a intenção é ensaiar). Se eu tivesse 17 anos talvez. Mas eu não tenho, eu tenho bem mais que a minha carinha de bebê Johnson denúncia. E isso por um lado é lisonjeiro e pelo outro lado é narcisista e neurótico psicótico apenas.

Polaridades à parte, tenho lido bastante sobre o budismo. Não bastante, "o bastante". Mas é a filosofia do caminho do meio. E eu sempre gostei do caminho do meio... Do meio das pernas, principalmente.

Na maior parte da minha vida, habitei o centro. Mas como todo bom burguês, sinto asco da própria sorte. Nunca pretendi miscigenar por sentimento de culpa ou doar às vestes do corpo por franciscanismo. Fiz o que eu pude e por diversas vezes deixei de fazer. Como todos deixam.

Sei do repúdio do velho Buk aos mentirosos. Mas quando eu sou cínico, eu sou brilhante. E quando eu sou modesto, eu sou hipócrita.

Talvez todos os somos. Como não cometer uma falsidade? Se todos somos jogados nesta existência capitalista e egomaníaca. A quem ame o dinheiro. Eu não! Não me importa o meu sobrenome ou de outrem. Não importa a minha cor ou a de qualquer outro.

Não importa nem a porra do silicone!

Eu quero verdade! E é por isso que eu volto ao início, para reencontrar o caminho. 

De volta a Laguna dos Patos, como de fato deveria ser chamada. E eu, tenho o nome que mereço. A vida que mereço. Como temos todos.

Então não chore, eleve o seu pensamento, que a dor com certeza, vai passar.

https://www.youtube.com/watch?v=LVQ0E01dgUA 

sábado, 20 de julho de 2013

Um Dia Frio Um Bom Lugar Pra Ler Um Livro e Dar Uma Boa Foda (por Woodygus Wine & Beer)




 
Ontem estava em casa, deitado ao lado de Cássia Lopes numa sexta-feira fria e chuvosa, estávamos tapados com 3 cobertores e com uma gata vira-latas sobre nossos pés ajudando no aquecimento.
Eu estava louco para transar, mas acho que Lopes estava cansada e acabou pegando ligeiro no sono. Mas não era de todo mal, pois estava frio e estava valendo muito uma companhia feminina, por isso acabei ficando tranqüilo, ao contrário do que aconteceria outrora em um dia quente.
Bem, como sabia que enfim à noite não me renderia uma rica foda, decidi me levantar e fazer um chá de limão e apreciar um bom livro. Peguei um livro biográfico de Kurt Cobain que há poucos dias havia começado a ler e o chá de limão e me aconcheguei o mais próximo e confortavelmente possível da negra que estava deitada na minha cama.
Abri o livro, e havia parado de ler no capitulo 4: “O Salsicheiro de Prairie Belt”.
Neste trecho do livro (início) ainda estava tratando sobre a adolescência de Kurt, mais precisamente seus 17 anos. Ele vivia entre duas cidades Aberdeen e Montesano, na qual seus parentes estavam espalhados, e devido a sua grande rebeldia, seu jeito preguiçosos e vagabundo, vivia nesta época como um andarilho de casa em casa, sendo expulso pela maioria de seus parentes (pais, tios, avós) e certas vezes por já não ter mais a quem recorrer acabava dormindo na rua ou em hospitais. As cidades eram pequenas e viviam da indústria madeireira, pequena população e conservadorismo extremo.
Este trecho passava-se entre os anos de 1982-83, porém de tão pequenas, esquecidas e sem atrativos expressivos as cidades tinham mais uma cara de 1972-73. Por esses e muitos outros motivos, Kurt encontrava sua paz de espírito na maconha, no LSD e principalmente no álcool que era mais fácil de conseguir apesar de ser proibida a venda para menores de 21 anos.
Kurt era um rapaz esperto aos seus 17 anos, apesar de muito preguiçoso e quieto e geralmente roubava bebidas da casa de algum de seus parentes ou dos pais de algum de seus amigos, mas como às vezes isso não era possível, além de inoportuno, ele teve que bolar outra maneira de conseguir o seu etílico, e a solução era “O Gordo”. Um personagem pitoresco que aparece neste trecho do livro.
Kurt e seus amigos desenvolveram um esquema regular com este alcoólatra que habitava um dos mais decrépitos hotéis de Aberdeen com seu filho retardado que se chamava Bobby. O Gordo era mais preguiçoso e alcoólatra do que Kurt e qualquer um de seus amigos.
O sistema era o seguinte: ele comprava as bebidas para Kurt e seus amigos, contanto que eles lhe pagassem uma cerveja das mais ordinárias e o ajudassem achegar ao mercado (que eles chamavam no livro de “mercearia”). Eles iam até o mercado, pegavam um carrinho de compras e o empurrava até o hotel, Kurt subia e acordava o Gordo - o quarto era descrito como um lugar extremamente sujo e fétido, o que me fez lembrar o quarto de Tommy -, o gordo ficava sempre deitado com sua cueca encardida.
Ao acordar descia as escadas, subia no carrinho e eles o levavam até a mercearia e comprava os tragos da rapaziada...
Bem logo adiante no livro, há um relato de que Kurt comprou uma torradeira e deu de presente para o Gordo, que o agradeceu chorando, foi um dos poucos atos de ternura do Kurt que eu li até agora.
Pouco depois eu fechei o livro e descansei em um sono largo e sereno ao lado de Lopes. Parecera que haviam passado miseráveis 20 minutos e a porra do despertador tocava. Estava na hora de trabalhar em pleno sábado, porém havia passado a madrugada e não 20 minutos, mas é sempre duro para um Wine & Beer levantar, ainda mais estando acoplado numa negrinha em uma fria e nublada manhã de sábado.
 Acordo com uma incrível ereção em todas as manhãs (ao contrario de Tommy, que há muito não sabe mais o que é isso) e logo dou uma “encoxada” em Lopes que aos poucos vai se ajeitando e arrebitando a bunda em minha direção.
Eu ligeiramente estico o braço e alcanço uma camisinha da prateleira que fica acima da minha cabeceira que é repleta de preservativos. Com um pouco de trabalho estico ele vagarosamente ao longo da chonga, para que não se rasgue nem fique com ar na pontinha. Com o dedo mínimo faço um ganchinho e puxo a calcinha de Lopes para o lado e taco-lhe a chonga e dou uma boa transada rápida matinal.
Assim que gozo lanço a camisinha suja para o chão e limpo a benga nas cobertas, visto meu uniforme e saio, o ar gelado e bucólico da ZS de Porto Alegre faz com que eu acorde rapidamente. Assim começa o Sábado e mais um dia árduo de trabalho.

 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A Fada do Dente Podre & Seu Pico Fantástico (por Tommy Wine & Beer)


 
 
For-mi-dá-vel! Meu despertador de 1,99 tocou! São 6 da manhã. Tateio a cabeceira da cama vagabunda do meu quarto vagabundo de pensão que sub-habito como um franciscano marxista a procura do relogiozinho. Encontro um objeto, é um pedaço de banana que espremo em minha gloriosa mão esquerda de arremessos precisos! Com a mão suja sigo a busca cega, encontro o aparelho dos ex-man e com o polegar movo a lavanquinha da posição on para off.

“Ventura a pobreza, ventura a patetice”, filosofo em pensamento.

É o inverno mais humano e suportável que já passei em Poa. Levanto de um salto. É sabido que grande parte dos gênios odeia levantar cedo. Eu sempre gostei. E de gênio nada tive ou terei. E no mais não estou de ressaca.

Tiro a bermuda dos Pacers que furtei de um bom camarada – canabinóico gênio do cartoons - , e noto que minha benga está murcha! Onde foram parar aquelas ereções fantásticas que eu tinha ao acordar? Deve ser a sertralina, a nova droga que o doidão aqui está curtindo! Foda-se!

Visto uma cueca preta com belas manchas douradas de clorofina e três furos. Calças de terno ordinária. Uma boa camisa. E os guerreiros sapatos de bico gasto.

Lavo o rosto, removendo os guisados verdes, uma escovada bem meia-boca nos dentes só para remover o bafo. Abro minha janela, ainda é noite esplendida, os pássaros dormem, dos ratos não posso dizer o mesmo. Respiro aquele ar nem tão limpo assim do centro, como se fosse o ar mais limpo de uma floresta mágica. Estou vivo porra, é o que penso.

Agora preciso de um café e queijo derretido! Preparo a refeição rapidamente. Eu adoro álcool! Por isso bebo com cautela, para poder me embebedar para sempre. E não acabar como meu primo Gerard que tem cirrose e explodirá com só mais uma gota de trago. Mas o que quero dizer é que ah, o café é a minha bebida! Ele lubrifica meu cérebro, catalisa meus pensamentos, dá viço, tesão, ímpeto, força e loucura as minhas palavras.

É uma terça-feira atípica, no turno da manhã irei ao dentista. É verdade que sempre caguei um pouquinho para os meus dentes. A grande maioria dos pobres de poa é assim. Somos uns porquinhos relaxados em relação aos nossos dentes. Ou seja, pobres tem dentes podres. Quando os temos, é claro. Agora na tevê e seu ridículo mundo tão natural quanto recheio de biscoito de morango, as pessoas tem dentes tão brancos quanto folhas de papel brancas.

Me despeço de meu belíssimo quartinho, tranco-o com meu cadeado dourado e tomo as RUAS. Escrevo em CAIXA ALTA mesmo por que as tenho em alta valia. As ruas são santas para mim. Agora deus e porto alegre escrevo sem esta insígnia reverencial. Escrevo-os em minúsculas letras, pra que se liguem e cresçam e evoluam e me ofertem pirulitos de cevada.

Meus dentes estão bens ruins, preciso confessar. Nunca dei muita bola para eles já disse. Se a beleza do interior da boca não me sensibiliza. Por outro lado seu odor é uma coisa que me incomoda mesmo. Odeio hálito de merda!

Daí cheguei ao consultório. Ingressei no elevador. Entre um gordão e a ascensorista me ocorreu o seguinte insight “Nós os Tomiello, temos dentes e miolos frouxos e ruins”, pois é incrível como todos de minha família temos dentes podres e somos loucos! E a loucura nos cura do tédio, só que nos fode no resto dos aspectos: como acumular dinheiro e respeitabilidade.

Apresento minha carteirinha de advogado a recepcionista. Minhas unhas estão sujas e cortadas desastrosamente com os dentes. Devo ser o advogado mais chinelão do mundo, penso.

 Uma garota ruiva diz:

“São 50 reais doutor.”

Pago a quantia com dor e pesar no coração. Uma onça! Cinco heineken’s 600 mls e 5 cachorros-quentes gostosos no Élio!

Observo que brilha uma mensagem no monitor do seu computador “advogado inadimplente”.

A ruivinha diz:

“O senhor precisa comparecer a tesouraria Doutor.”

“14 mensalidades atrasadas querida, tal qual a dívida de aluguéis do Seu Madruga! E corta essa de doutor, por favor. Não sou doutor, sequer sou técnico em enfermagem. Sou Tomiello, o advogado das ruas.”

“Ok, doutor, pode aguardar seu nome ser chamado pela Doutora Florbela.”

“Podia ser Florinda!” digo, dando uma de palhaço.

Ela riu, eu ri também, a vida era de fato um grande barato, e eu nunca tocara em cabelos ruivos, em crespos e dourados sim, ruivos não, exceto talvez os de meu amigo Mingau, um jornalista e baixista de punk rock amigo de longa data.

De repente ouço “Ângelo Gubert Tomiello”. Era Florbela pronunciando meu nome, embora de bela não tivesse nada. Aperto sua mão e ingresso na sua sala. Ela pergunta:

“O que houve Ângelo?”

“Bem, eu sou advogado, mas também sou escritor e jogador de basquete, e estava numa partida fantástica, marcando um cara de quase 2 metros de altura e mais de cem quilos, quando ele me acertou INVOLUNTARIAMENTE uma cotovelada no rosto e me quebrou um dente! Mas foi sem intenção, ele ficou bem chateado e até me pagou uns drinks no Mister Xis depois.”

Pura lorota. Eu havia quebrado aquele por culpa de um pastel. Outros dois eu quebrara mastigando amendoim chinês e passando fio dental.

Deitei na cadeira, ela me aplicou aquelas injeções gostosas de anestesia, uau! Quando criança eu era um frouxo e cagão e morria de medo de ir ao dentista. Agora a dor física não significava muito para mim. Não me importavam tanto depois de tantas dores na alma em virtude de guampas e outros sonhos apodrecidos e borolentos.

A anestesia começou a fazer efeito. Minha boca foi ficando engraçada, sem sensibilidade. Em meu delírio, me imagina um junkie como Bill Burroughs, tomando um pico da fada do dente podre, passei a ter visões ou imaginá-las: Bob Dylan disfarçado de Robbin Hood, Bukowski sodomizando Allen Ginsberg, Dom Quixote guiando uma Harley, Sannio Carta de barba e cabelos longos tocando Like a Hurricane do Neil Young numa guitarra cujas cordas eram fios do bigode do Belchior...

Florbela seguiu tratando meu canal e o pênis da minha alma teve uma ereção afinal.

 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Em que buraco se enfiou Andrea Thomas? (Sannio Carta)



PARTE 1


- Tem um cara bêbado se gabando de ter dado uma surra num tal de Wayne Moss ali na esquina. - disse Billy, meu ajudante mal remunerado. 

- Tá e daí (mascando um palito de dentes), o que eu tenho com isso? - respondi, voltando para a minha leitura habitual (Hustler Magazine[1]).

- Mas Seu Ledo[2], o cara bêbado é o Chinaski[3], aquele alemão maluco!- cochichou Billy.

- Filho da puta! Por que diabos não me disse antes? - e levantei minha bunda obesa da poltrona de couro me dirigindo tropegamente até a porta.

Quando cheguei à esquina, ou melhor, no bar da esquina, lá estava o homem que me devia cinquenta mangos.

Cinquenta mangos e um jab acima do umbigo (que volta a doer nos dias de chuva).

- Chinaski, seu polaco filho de uma cadela! - esbravejei tão alto que a minha barriga quase despencou toda por cima do cinto.

E prossegui:

- Onde estão meus cinquenta mangos?

Nisso Chinaski me olhou com um olhar severo, como se eu tivesse profanado o que ele devia considerar a única santidade verídica em sua vida imunda.

Depois subitamente seu semblante mudou e depois de um gole audaz entre gargalhadas me disse o seguinte:

Hahaha...

- Ora, ora, se não é o velho Tomy Ledo! Aonde você andava velho miserável?

E estendeu o seu braço sobre o meu ombro, como fazem os velhos ursos.

Confesso que suei frio, e naquele momento reconsideraria absolutamente a já quase esquecida dívida. Instintivamente levei a mão ao baço.

Ele prosseguiu:

- Meu velho (ele devia ter aproximadamente a minha mesma idade), a dívida que o "Dr. detetivezinho" de araque menciona não existe.

- O serviço porco que encomendei "ao doutor" (e arrastou aquela "boca de sandália" para falar isso), nem sequer foi feito (despejando milhares de gotículas asquerosas na minha cara).

- Hmm... (murmurei em voz alta). E conjecturei com os meus botões.

Realmente eu não havia feito, com o aluguel chegando lembrei só dos cinquenta mangos.

Merda! Tinha ficado muito tempo com os hippies.

- Pode deixar Chinaski, vou achar a vagabunda! - finalmente lembrara.

Antes de me levantar e sair daquele pulgueiro etílico lamentável. Henri praticamente "me obrigou" a lhe pagar uma cerveja.

E eu só conseguia pensar:

"Em que buraco se enfiou Andrea Thomas?"



[1] Revista de mulher pelada, até onde vai ignorância do editor, de propriedade de Larry Flint.
[2] Tomy Ledo personagem de Sannio Carta criado no clássico conto “O Realejo do Macaco Cego Amante das Borboletas Suicidas”, um detetive bêbado nos moldes de Nick Belane (de Buk. Em Pulp).
[3] Henry Chinaski alterego do Charles Bukowski.

Em Que Buraco Se Enfiou Andrea Thomas? (Sannio Carta)




PARTE 2
Fiquei com a pulga atrás da orelha, depois da minha conversa com o Chinaski.

Mas "o homem deu nome a todos os animais"[1]

Apontou todo jogador, bacharel e prostituta que conhecia Andrea Thomas na cidade.

E eu sabia de algo que Chinaski não sabia. 

O nome da amante secreta de Andrea. Lucille. Uma advogada porta de cadeia, sugadora de lingeries. 

Gostosa como um x-bacon com cerveja gelada em uma sexta-feira à noite.

Teoricamente eu não teria de fazer o serviço, mas como eu já estava a um passo de roubar as moedas que atiram para os vagabundos. Resolvi colocar meus mocassins surrados de volta às ruas. E ir atrás da puta.

Chegando ao apartamento de Lucille encontrei a porta semi-aberta.

Havia um cheiro de sexo, mofo e sangria. De fato, encontrei as duas piranhas deitadas na cama. 

E na parede, um ultraje lesbofóbico: "Vagabundas lésbicas".

Cara, por essa eu não esperava. Procurei luvas em meu bolso, para tentar esconder minhas digitais dali.

Felizmente, Billy lembrou-se de colocar luvas descartáveis em um dos bolsos do casaco.

Merda! Quem eu estou enganando. Vou ligar logo para a polícia, assaltar a geladeira e esperar "os canas" chegarem.

Enquanto isso, a parede ameaça cair com os solavancos que o casal ao lado produz.

Soco a parede em respostas ao barulho. 

Passado alguns minutos adentra apartamento afora um cara pelado com um "cigarrinho de artista" nos lábios. Era Cassady[2].

- Cara, já soltaram você? -ele disse, abrindo aquele maldito sorriso maníaco.

Anos antes havia, cumprido uma pequena pena com Cassady. 

Estelionato. "Pfff"... Como se eu precisasse mentir para roubar.

Cassady cumpria por assalto. Na cela tinha também um caipira, um advogado bêbado. Um tal de George Hanson.

Ele, o George que livrou nossos rabos daquela vez. Anos depois, soube que foi morto por outros caipiras, em algum lugar "entre a puta que pariu e o cu do mundo".

Pobre George.

- Ei cara, o que aconteceu com as gatas? - visivelmente espantado, Cassady me arranca abruptamente de minhas memórias fragmentadas.

- Ainda não sei, Cassady... - levanto-me para cumprimentá-lo (eu queria um aperto de mãos, ele preferiu um abraço).

Nisso, chega a polícia.

Puta que pariu.




[1] Ao que tudo indica uma espécie de trocadilho insannio da canção “Man Gave Names To All The Animals”, canção de Bob Dylan
[2] Neal Cassady. Beatnik. Imortalizado como Dean Moriarty em On The Road. A versão cinematográfica impressionou Sannio pra caralho, teria inclusive feito as pazes com Selma à época em virtude do filme.