sábado, 13 de julho de 2013

" Insights Soturnos & Visões Apocalípticas Cínicas de Um Comedor de Cogumelos de Bosta de Vaca" (por Felipe Mutley)





Mergulhei fundo na sanga de cacos de vidro, que corria em direção à montanha de espantalhos das plantações de marcela abandonadas. Abri os olhos e vi fósseis de inúmeros modelos de celulares obsoletos, descartados pelos seguidores da última moda, ou perdidos em ônibus interestaduais, por fugitivos do onipresente poder das emissoras de TV aberta dos países subdesenvolvidos. 
Aos poucos, retornei ao nível da água e pude respirar  o ar degenerado por agrotóxicos que impedem os cogumelos bovinos de se desenvolverem. Na beira do rio, cresciam algas pretas formadas pelos filmes de fita cassete que não forma encontradas pelos catadores de lixo.
Fiquei boiando por um tempo e deixei que a correnteza me levasse adiante. Dos dois lados do rio máquinas enormes sulcavam a terra para que fossem erigidas estruturas capazes de suportar a inércia tediosa que enlouquese pessoas de todas as idades.
Enxerguei a montanha de longe. Os espantalhos pareciam tristes, sem ninguém que lhes fizesse companhia. Conforme eu subia, alguns me acenavam amigavelmente. Mas as marcelas já não estavam lá. Um deles me explicou que, na última Páscoa, combatentes radicais da tradição incendiaram o campo.
Devo ter ingerido um gole da sanga, pois fiquei com dor de barriga e diarréia. Pedi ajuda à capivara, que me levou a um pé de baleeiro. Todos baleeiros brotam nas cercas divisoras de matagal. Mastiguei a erva de gosto suave e meu estômago foi aliviando.
Cruzei a cerca e começou  a chover, avistei um galpão de madeira e bati na porta. Uma velha me atendeu e pediu que entrasse. Serviu-me um chá quente de cogumelo das suas vacas e tudo mudou. Transformou-se numa linda garota de seus dezessete anos, usando um macacão de jeans que ia até as coxas.
As trovoadas abafaram novos uivos e gemidos. Flutuávamos acima dos máricas não tínhamos medo dos espinhos. Acordei coçando sum silo de barro e palha, em cima de cascas de arroz, ao lado de um velho graxaim-fêmea.
Era alta madrugada, a chuva se tinha ido e senti frio. Segui por uma trilha que me levou por uma floresta. Eu andava sob a copa das árvores, ziguezagueando na densa neblina. A escuridão era opressiva e me dava medo. Subi num pé de camboim para avistar o povoado mais próximo, mas a floresta era grande, com árvores mais altas em que não tinham coragem de subir e obstruíam a visão para mais longe. 
Esquartejadores canibais terão uma desastrosa surpresa quando não tiverem sua esquizofrenia reconhecida pelo psiquiatra forense e fizerem parte do prelúdio marqueteiro do jornalista sensacionalista, que usa e abusa de seu poder de divulgação de opiniões calculadas, cuidadosamente encaixadas no inconsciente coletivo da elite desilustre.
Informações são transmitidas e retransmitidas milhares de vezes por segundo pelos mesmos canais de comunicação para que sejam depuradas e transformadas em barras de cereais binárias que nutrem economistas que prestam consultoria às empresas detentoras  do controle acionário da morte. 
Escutai, oh vassouras artesanais, usadas por moradores do perímetro rural selecionado pela via difusa de transformação do alimento em negócio. 
Adolescência reconhecida pela ciência; anunciadores de milagres de fim de mundo lotam estádios com milhares de ovelhas cansadas e não castradas em cadeira nacional. Essa éa nossa comunidade ideal: liberdade de crença e o caralho a quatro. As garotas se derretem com o virtual chalalá em tempo real do computador e nem me notam cheio de disposição ao seu lado. 
Vou me trancafiar no meu mausoléu e só sair no apocalipse para acender meu cigarro no fogo do céu. Bons sobem e maus descem. Se nem deus nem diabo me quiserem, fico com o que sobrare monto com reminiscências de ideias amorais, máquinas vicidadas que produzem suas próprias drogas para me acompanhar no meu barato. Dançaremos ciranda em sentido anti-horário para que o tempo passe mais devagar.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

"A Divina Comédia Ou Ando Meio Desligado" (Sannio Carta)



Sigo sentado, com medo de caminhar. Os meus pés não têm a devida estabilidade no chão.
Falta equilíbrio que sobe as pernas e se perdem.
Vejo as notícias na tevê, ouço o rádio sem saber qual é mesmo o dia da semana.
Saio do sofá para a cama, da cadeira para a beira de alguma ponte.
Sinto dores na fonte de água corrente e dormente na minha língua.
Os lábios voltando à virgindade, nem gosto de bicarbonato.
Pensamentos desconexos, enquanto me encanta o teu sexo e qualquer outro que me faça gozar.
Sempre há um aniversário para ir, um drama para assistir, um viver para dormir.
Os corpos balançam e estou me santificando no ébrio desconsolar da serpente.
Nádegas a declarar, sobre tantas nádegas a balançar.
Flor, no teu cheiro ópio, nas tuas pétalas sóbrio, me embebedo do teu sexo.
Vejo uma foto incomunicável na glória dos teus passos e os meus que me levam para o outro lado. Eu corro em minhas tripas e de tantas dores esquisitas que eu já nem sei se está se retorcendo aqui comigo também.
A erva que o diabo cultivou sobre um nome de anjo ele plantou esperando a curiosa condição humana espalhar as sementes que ele não criou.
O útero em blues não sabe o que vem depois da luz pode ser apenas saudade piedosa.
Eu gritaria se pudesse, eu seria você se quisesse. Mas você só pensa em prosperar, enquanto eu ouso penar. Na covarde persistência de manter-me existente.
Saudade no sal dos olhos, no rosto que começa a desmoronar com as mentiras que eu invento. Nem sinto mais fome, porque nunca estou satisfeito. Não!
Vejo a luz do refrigerador  tentar esquentar o que se fez congelado. E os dedos todos marcados, queimados, refrigerados, sem palmas. Sem palmas.
Instrumentos, na boca um adendo e rimas que lembram sofrimento.
Nada quero dizer, quando me calo em línguas estranhas. Sem pronunciar. Sem falar o teu nome.
Sinto que o prazer está em sentir, em ser uma nova ironia.
Fotos do seu rosto lindo, seu amigo Arlindo que quer viajar comigo.
Maldito burguês! Saia do meio da rua pois eu posso querer passar.
Cabelo ao vento nem tirou o documento do automóvel ganho sem discernimento.
Trás mais uma cerveja para o rebento, talvez traga sentido ao piercing de umbigo da gostosa ao seu lado.
Cresce ansiedade, vai e desce, telefone que não toca. Mosquito, muriçoca.
Vejo o preço absurdo, mas eu quero ver o crepúsculo e renovar a esperança.
Grama úmida, molhando a bunda e o soldado quer que eu me levante, quer que eu leia Dante e seja dependente de Deus.
Praça colorida (ai que dor de barriga). Jesus Cristo tatuado na outra mão um baseado.
Eu sorrio e não recebo resposta nem do brigadiano fedendo a bosta, deve ser de suas botas. Coturno, contudo, não tem cheiro de nada.
Domingão enuviado, não é animal, nem homo sapiens, hétero "tardis".
Me alcança a salada. A minha é a de batatas, a da minha prima é a de couve.
Melancolia no abraço da velha tia, no meu rosto de nostalgia, alegria partida.
Coração de favelado, sem viver a realidade do futebol sem resultado.
Subo no palco, e mostro o fundilho das calças. Rio na calçada, e roubo a namorada do mendigo "cabrocheiro".
Limpo as lágrimas e o palhaço já não tão triste voa para outro guarda-roupa.
Chega a noite bela e açucarada ninfa descarada sem véu no rosto.
Bêbado desmantelado, outros molhados na chuva que pariu da lua descabaçada.
Beijo escondido o manto das folhas, o céu, o umbigo, as tralhas das ruas.
Danço como a noite mais um turista espiando embaixo da saia algo melhor do que a vista.
Subo no altar da carência e arrasto a culpa na vergonha e a vergonha escondo com as mãos.
Seguro a hóstia em concha as partes em borboleta, nos lábios toda a rima suja.
Profetizo o gozo esquecido, vou do ostracismo ao desconhecido.
Dó em órgão, dó do órgão enquanto os anjos cantam, dançam e festejam.
Do vinho às cochas. Duvido!
Psico delicia, transmuta, batendo, vibrando. Gemendo, barulho, bagulho, centeio.
Chega a propaganda, a lembrança desmembrada. Cores, pastéis, dias cruéis, piano.
Ápice, cigarro, cinza, apagado, esquecido, tão lindas e agudas, as doces manhãs.
Acabou, nunca é forte demais, nunca mais, será capaz. Aaaahhh!!!
Deixa muda. Deixa muda.
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Experiência psico contextual auditiva e individual, sobre o disco: "A Divina Comédia Ou Ando Meio Desligado" (Os Mutantes) - Ano: 1970

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Improvável Vocação (por Tommy Wine Beer)



Cansado de ser um homem-da-lei
ele está decidido
tem 33 anos
vai ser um compositor
vai fazer canções capazes
de comover Deuses e assassinos
Nunca tocou violão
ou nenhum outro instrumento
musical qualquer
MAS ESTÁ DECIDIDO, ATÉ PQ. ORA, TEM 33 ANOS
VAI SER UM COMPOSITOR!
Montou um plano até:
Primeiro vai ouvir e estudar
todas as canções de Bob Dylan
Depois vai ouvir muitas pessoas
e suas histórias
vai ouvir velhos, bêbados, loucos, animais 
e ladrões
Depois vai ler uma lista de 20 romances
em seguida, lerá outros 10 compêndios
de filosofia, intercalando com outros
vinte de poesia
logo, trabalhará em serviços ruins
vai sofrer como seu povo sofre, e
amará uma mulher e beberá um pouco também,
depois disso comporá as letras de 21 canções
pra quem sabe um dia comprar um violão folk.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A Filosofia da Salsicha (por Tommy Wine Beer)






Na minha família,
antigamente,
Conta-se que
os adultos levavam
as crianças
Para passear e
OLHAR “ricos”
comer cachorro-quente
e beber
uma Coca.

Pois bem
aqui estou
eu agora,
No Élio!
Comendo um dog
loucamente saboroso
Eu,
um descendente direto
dos “espectadores de degustação
de cachorro quente!”

E tenho
esse pão fofinho,
como bochechas de bebê
com molho de tomate
e a salsicha!

Tudo isso
em minhas mãos.

Sobretudo
a salsicha,
símbolo de meu Poder!

Eis que agora
embriagado desta emoção
Penso até mesmo
em uma filosofia da salsicha!
Metáfora da alquimia
de tudo que é ruim,
ignóbil...
Como eu,
e os meus
de meu sangue
amalgamado (wop -portuga-negro-índio...)
Fazendo das tripas e papelão
Transmutação em poesia-gustativa
Eis a lição
que a salsicha ensina.

O Cãozinho e o Diabo (por Tommy Wine Beer)



 Para Alexandre Garça Wine Beer, "O diabo em forma de gente"!!


Acompanhei os últimos momentos
da vida de um cãozinho.

Parecia louco,
correndo na contramão,
de uma avenida movimentada
da cidade.

Era frágil, bonito
e branquinho como a neve.

Sofreu um duplo atropelamento!

No primeiro, estatelou-se no asfalto
contorcendo-se em dor;

Depois, ainda caído
um segundo automóvel
o pegou!
restou o rabinho
em frenético movimento
por alguns segundos ainda;

Naquele ambiente funesto,
olho para o lado e vejo
ele em tão eufórica satisfação
O diabo em forma de gente!

Escrito em 11/03/2008