sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"Da Lama ao Caos" (por Tommy Wine Beer)


Final de tarde mordacenta da porra! Sexta feira frenética dos diabos. Meia dúzia de cervejinhas no melão. Cantarolando um rock num inglês duvidoso, ao ritmo do tilintar de suas últimas moedas que pulam no seu bolso. Fazendo uma dançinha muito da cretina e indecente.
Abre a janela e observa o nó da gravata dos yuppies um tanto soltos. Respira fundo e pensa “tanta xoxota cheirosa por aí, posso até sentir sua fragrância”. Na real não passa de um misto de fumaça industrial, de carros, tabaco e alguma cannabis (que talvez possa ter lhe iludido com o tal odor adocicado de vaginas). Esse Tomás era um poeta, dos ruins por sinal!
O telefone toca e aquele ruído tosco soa como o clangor do sax de Coltrane. Uma doce melodia de esperança para Tomás que está desempregado e com 20 pilas no hipercard.
_ “Alô Tommy, é o Sílvio seu veado, olha arranjei umas xexecas pra nós, que que tu acha?”
_ “Honestamente, não sei não. Dá onde são as garotas?”
_ “Da Zona Norte! A tua não chega a ser bem uma garota...”
_ “Caralho, tu sabe que não transo gays!”
_ “Não se trata de um veado, nem de um travesti, é uma coroa de uns 40 anos.”
_ “ Gostosa ao menos?”
_ “ Sim. A cara já não tá lá essa coisas, mas o corpo tá legal, acho até que tem silicone...!
_ “É mãe da Aninha, aquela maconheirinha de 17 aninhos”!
_ “Ahã. E tu sempre escolhe a melhor! E eu sempre tenho que ficar pela ‘parceria’ né!?”
_ “Qual é seu bicha? Alguma vez tu me entregou uma mulher assim de mão beijada? Que tu quer mais? Quer que eu já deixe ela molhadinha pra ti? Olha cara daqui a pouco eu me faço de louco e como as duas: mamãe e bebê...”
Tomás tinha 31 anos. Pensou em duas pensões atrasadas. Pensou na glande do seu pênis um tanto esverdeada. O que ele teria? Gonorréia? Sífilis? Lepra? Então respondeu:
_”Tá, tudo bem. Deixa a ‘vetera’ pra mim. Tô indo pro teu apartamento agora. Levo alguma birita? Algum disco?
_”Trás umas quatro garrafas de vinho branco seco. E trás também alguma coisa do Chico pra fazer um clima...”
_”Science?”
_”Buarque seu burro! Tu quer criar uma atmosfera romântica com batuque e guitarra distorcida daqueles loucos?!”
_"Eu tinha pensado naquela pra tocar pra ‘veterana’... lá,lá,lá ...Peguei um balaio, fui na feira roubar tomate e cebola/Ia passando uma véia, pegou a minha cenoura/Aí minha véia, deixa a cenoura aqui/Com a barriga vazia não consigo dormir/E com o bucho mais cheio começei a pensarHehehehe..."
_”Tu é retardado cara? Hehehe... falou então, até mais!”
Como era engenhoso aquele Sílvio pensou Tomás, se livra da velha, da grana da bebida. Que grandioso filho-da-puta! Mas o cara é boa praça, parceiro mesmo aquele maconheiro leitor de Paulo Coelho! Então ele abre a geladeira, pega a última lata de cerveja, puxa o lacre, da uma boa golada, ainda lê o bilhete do bico de segurança que arranjara pra aquela noite colado na porta. Desliga o rádio que estava no noticiário esportivo. Vê a mostarda do sanduiche derramada no livro de poemas intitulado “Um Parque de Diversões da Cabeça” de Lawrence Ferlingueti. Então canta com sentimento:
_”Que eu me organizando posso desorganizar, que eu desorganizando posso me organizar...”.

4 comentários:

Zen+Noção disse...

hahahaha muito bom. Vou linkar ok?

paul.eric disse...

O texto tá ótimo!...Sinto apenas uma tristeza profunda,de não ser tão erudito.A ponto de comer alguem ouvindo Chico Buarque!

Agentes da L.O.U.C.A disse...

Linkar? Ah pode linkar a vontade "Zen+Noção...".
E tu Paul tu copulastes ao som de que espécie de cortina musical? Ao julgar pelo decote de uma senhorita que certa ocasião acompanhava o senhor pode ser até mesmo o ODAIR JOSÉ daquela "eu vou tirar você desse lugar"...

paul.eric disse...

Ah!...Que saudade da mãe da Aninha!