quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Dom Quixote e a faculdade de Direito (Tommy Wine & Beer)

"Posso, sem armas, revoltar-me?(Drummond)"



Eu era um jovem de vinte anos em 1999. Tinha ABANDONADO meu primeiro emprego numa oficina. Já tinha um filho de dois anos pra criar. E já engolia amargo o ar que respirava já sem esperanças de me tornar um jogador de basquete profissional, meu maior sonho. Terminara o Segundo Grau via supletivo. Começava a me interessar por álcool.


Então um dia meu pai me chamou pra conversar. Disse que eu tinha que dar um jeito na minha vida. Trabalhar duro ou estudar pra ingressar na faculdade. Diante daquele dilema acabei optando pelo estudo e entrei num curso de Direito.


Me lembro bem como criei expectativas absurdas em relação aos meus colegas e professores. Temia ser deveras filisteu pra me relacionar com eles. Nas primeiras semanas de aula já descobri que não passavam de uns chatos, alienados e incultos. E a única razão que me fazia superior a todos eles é que eu tinha consciência de minha mediocridade (eu também era chato, alienado e inculto), enquanto eles se achavam.


Apesar disso ingressei no curso com algum entusiasmo! Gostava das aulas de Filosofia, Sociologia e Ciência Política. Eu até me destacava nas aulas com alguns comentários que deixavam até os "profes" em parafuso. Um dos professores mais durões chegou um dia a conversar comigo, ventilando a hipótese de que se eu não quisesse me tornar um advogado (eu praguejava o tempo todo contra os advogados) eu poderia seguir a carreira acadêmica. Depois esse mesmo professor que deixava 70% dos alunos em grau C (recuperação) acabou me reprovando.


Eu não tinha amigos na faculdade, não suportava o papo furado do pessoal, seus preconceitos... uma vez eu questionei um cara que vivia chamando as garotas mais liberais de "putas". Eu perguntei: “Qual a razão de uma menina que transa com diferentes caras ser chamada de "puta" e o mesmo não acontecer com um cara que se relacione com muitas garotas? Tu mesmo, por dedução lógica, eu poderia te chamar de "puto".” Ele ficou "puto" comigo, claro!

Depois desisti de bater papo com aqueles "manés"! Fazia questão de me esconder dos meus colegas até mesmo no ônibus, pra ir sozinho no último banco lendo alguma coisa (literatura claro!).


Teve um semestre que eu andava me sentindo meio deprimido e sem estômago pra assistir aulas de Direito Empresarial e Tributário que eu cursava a época. Assim coisa de primeiro mês de aula eu já estava pendurado, no limite de faltas! Logo eu tinha de dar um jeito de permanecer no interior da sala de aula! Entretanto não tinha como, eu andava muito triste e entediado pra ficar naquela cela coletiva, e ainda tinha que administrar minha dislexia e meu déficit de atenção.



Tentei beber antes das aulas. Não deu certo, eu me tornava muito descortês e atrapalhava o pessoal que estava afim de estudar e o trabalho do professor. Então foi num intervalo (onde eu passava no corredor da literatura onde os estudantes de direito nunca iam!) que tive a ideia de passar a ler no transcorrer do período das aulas. Assim vasculhei as estantes pra escolher um livro. Encontrei Dom Quixote de Cervantes. Dois volumes de umas quinhentas páginas! Achei que daria pra ler até o fim do semestre.



Eu me sentava no fundo da sala e lia umas três horas por manhã as histórias de um velhinho que tinha ficado maluco de tanto ler (histórias de cavalaria) e saia pelo mundo com seu tosco escudeiro Sancho Pança a caça de aventuras, sedento de justiça e fama! Eu li ou ouvi uma vez inclusive que o Subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional, afirmara que “Dom Quixote” reunia mais ciência política que “O Capital” de Marx.


Aquele semestre foi o melhor do curso, exceto pelos fatos que eu devo ter sido reprovado em quase todas as cadeiras e nenhuma garota se interessou por mim (a bem da justiça, honraria que me acompanhou até minha colação de grau em gabinete). Assim sendo, deixo mais esta dica de leitura: O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes: o livro mais engraçado do mundo!

6 comentários:

Raphaela Flores disse...

Cara, quem são vocês? como encontraram meu blog?

paul.eric disse...

...E o Sancho sempre comia seu sanduÍche de pasta de amendoim!
Ps:Quem é a Raphaela? :p

Agentes da L.O.U.C.A disse...

Quem somos nós? Posso dizer que sou eu! Um blogueiro que fez uma pesquisa no google sobre o livro CARTAS DO YAGE de WILLIAM BURROUGHS e encontrou o teu texto sobre o livro onde um cara fez um comentário com algumas observações duvidosas, como por exemplo considerar o Bukowski admirador de Rimbaud e o John Fante um autor Beat, além de dizer que o Allen Ginsberg só tinha um poema que valia a pena ser lido: o UIVO.
No mais achei bem bacana o conteúdo do teu blog!
Grande Presença.
Ass: Tommy Wine & Beer.

Agentes da L.O.U.C.A disse...

Não sei. Li um artigo sobre um livro que eu tava pesquisando ...

Agentes da L.O.U.C.A disse...

Não sei quem ela é. É uma blogueira-jornalista... li um texto dela sobre Willian Burroughs.

Raphaela Flores disse...

nao, capaz. Problema nenhum! só fiquei curiosa mesmo. A propósito, curti o blog de vcs! Vou acompanhá-los!
abraço