sexta-feira, 30 de abril de 2010

Antídoto. (além da dor) por Renato HELL Albasini



A sua mão foi segura. Ele tentou de todas as formas fechar o punho. E outras duas mãos apertaram tanto que conseguiram vencê-lo. O punho descerrado, a palma da mão aberta colada na base da madeira da mesa. Uma terceira mão surgiu no ar, enquanto os dedos da mão sobre a madeira eram arreganhados à força pelas outras duas que mantinham a tensão. As duas mãos prendiam quase colando na sua base. A outra mão suspensa pegou uma faca e começou a brincar. Batia com a ponta amolada entre o vão dos dedos acelerando o movimento. Risadas eram ouvidas, gargalhadas até. E um coro de vozes urrava que fosse mais rápido. Chegando ao ponto em que a mão, que orquestrava os movimentos, parou no ar e enfiou com toda a intensidade no meio da mão que estava aprisionada pelas outras duas.

A faca atravessou a pele, atingindo os tendões e entrando uma parte na madeira. Não se ouvia mais as risadas, mas o grito desesperado de quem fora vítima. Houve um “delay”, um retardo entre o ato da lâmina perfurando a mão e o grito do alvejado. A mão que o agrediu, que cometeu o ato não largou o cabo da faca, permaneceu ali segurando com força e começou a torcer a faca dentro da mão de um lado para outro. Ouvia-se entre os gritos lacerantes, o ruído da madeira sendo corroída. E não parava, o agressor, não fazia questão de diminuir os movimentos e nem a intensidade. A dor já não era mais física, ultrapassava o corpo, tomava proporções metafísicas. A mão já estava adormecida. Só que mesmo que ele não sentisse mais a dor, ela ainda “doía” em outros sentidos.

O agredido sofria às lágrimas, babando de dor, olhava a mão presa sendo cada vez mais perfurada, a dor que ele sentia já nem existia mais. Era apenas uma ardência do sangue e suor. O agressor parou de girar a faca. As respirações dos assistentes, ou assistente, junto com a do agredido e agressor davam um som rítmico.

Alguém dissera para soltar a vítima. E ouviu nada além do tapa que o agressor deu em cima da faca enfiada na mão do agredido empurrando-a, mais fundo, para dentro até metade da lâmina. E abandonou-a.

Deixaram a vítima presa ainda à mesa sozinha, no escuro. Ali ficou até desfalecer. Começou a delirar num sonho profundo. Acordou com a mão dolorida arroxeada; dedos retorcidos. Estava livre, em outro lugar. Sofria além da dor. Sentia a dor em seu peito.Sua mão estava perfeita. Ele só quer encontrar seu antídoto.


2 comentários:

Raphaela Flores disse...

lindo

Agentes da L.O.U.C.A disse...

Meu patraozinho: HELL IS RULES!
ASS:TOMMY